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sábado, 24 de dezembro de 2011

E AINDA FALAM QUE ISTO É UM FATO ISOLADO.......................


Traficantes “dominam” um bairro inteiro de Itaguaí


Traficantes “dominam” um bairro inteiro de Itaguaí
Inscrição em parede de uma das ruas afirma que área é do TCP e ordena que os carros abaixem os faróis.  Mesmo baleado nos dois braços, motorista da patrulha emboscada conseguiu dirigir enquanto colega, com tiro na boca, na barriga e no braço, revidava ao ataque. PM garante que vai intensificar o combate até encontrar os criminosos.
Por Jorge Lopes
Quem passava ontem pelas ruas e becos do bairro do Engenho não conseguia sentir e nem medir, na realidade, o que acontecera na madrugada de quarta-feira quando uma patrulha do 24º BPM (Queimados), lotada na 5ª Cia, em Itaguaí, foi emboscada por três desconhecidos que atiraram nos policiais utilizando sub-metralhadora e pistolas. Ambas de calibre 9 milímetros. Nos botecos, em dois deles pelo menos, o som alto entonando músicas funk, e a presença de jovens, esparsa, mais de ar atento ao que acontecia.
O sol a pino espantava aqueles que não tinham necessidade de estar por ali, nas ruas. As casas, fechadas, e um ou outro comércio se mantinha aberto. Sinal de violência? Não.  Ao olhar para um lado e para outro, ninguém armado. E se havia vigias do tráfico, os chamados “olheiros”, estes se mantiveram em bom disfarce. Eram 14h30, o calor estava intenso neste primeiro dia de verão. No local não existem prédios, como na maioria dos bairros da cidade. Só existem casas, seus muros e portões.
De repente, a aparência de tranquilidade dá lugar a uma preocupação: numa rua, das muitas percorridas pela equipe, mostra o que acontece à noite, quando todos os gatos são pardos.  As letras pretas numa parede dá a ordem, como se estivéssemos entrando numa área proibida, ou “militarmente” guardada: “Área do TCP. Apague os faróis”, alerta o cartaz malfeito, mas intimidador.  Ou seja, estávamos entrando num local dominado pelo Terceiro Comando Puro (TCP) que, ali, é controlada pelo traficante Cabal, que também divide suas forças com outro traficante, o Marimbondo, do Morro do Carvão.  Embora da mesma facção, os dois não se bicam muito, apenas se suportam. Mas, quando se trata de aterrorizar, se juntam para cometerem os malfeitos pretendidos.
Hipoteticamente, os dois têm suas bocas, ou “esticas”, abastecidas por grandes favelas da Zona Oeste, como Coréia e de Senador Camará.  De acordo com o comandante da 5ª Cia, Capitão Fernando Barbosa, ao contrário do que se imagina, Itaguaí ainda não sofre o que vem sofrendo determinadas comunidades, como as de Santa Cruz, dominadas pelo tráfico armado, que utiliza armamentos até de guerra. Ao contrário, não existem aqui locais de refino de drogas e nem quadrilhas extensas. Apesar das denúncias anônimas chegadas à 50ª DP (Itaguaí), dando conta que o município estaria escondendo traficantes foragidos de áreas de UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora).
“O que vem para cá são os chamados “kamikazes”. Traficantes menores que chegam aqui, praticam seus ataques, e fogem”, afirma o capitão Barbosa.
Mas, quem continua percorrendo as ruas mais para dentro do bairro do Engenho ainda se espanta com as “assinaturas de alerta”, afirmando que a área é dominada pelo TCP, e que todo o cuidado é pouco.
“Meu desafio é não deixar que ocupem territorialmente a cidade”, diz o militar, acrescentando que os poucos traficantes que estão no município ainda não utilizam armamento pesado, como fuzis.
Em pequena escala, Itaguaí é dominada por apenas duas facções criminosas: TCP e CVRL (Comando Vermelho Rogério Lengruber). Este último recebe apoio de favelas do bairro de Santa Cruz: Rola e Antares. O ADA, facção Amigo dos Amigos, ainda não entrou.
Mesmo assim, não sendo tão grande as quadrilhas existentes praticam o império do medo junto aos moradores. No caso dos policiais atacados, por exemplo, ninguém quis falar ou comentar o assunto.  Respostas de alguns: “não quero virar comida de jacaré”.
Fatos isolados
Na avaliação do capitão Barbosa, o que aconteceu com os militares de sua companhia foi apenas fato isolado. Ele contou com detalhes a mecânica do ataque à patrulha, promovida por três desconhecidos que estavam escondidos. A central da corporação, através do 190, recebera no início da madrugada de quarta-feira uma denúncia sobre desordem, com som alto de funk, no número 44 da Rua Manoel Santos, no bairro do Engenho, que incomodava a vizinhança.
Para o local seguiu a patrulha prefixo 54-5384, integrada pelos cabos Fabiano Gomes Masseran (Cb. Gomes), de 32 anos, e Edson Fernandes da Silva (Cb.Fernandes), de 35 anos. Ao chegarem a rua, cuja a numeração é desordenada, os dois PMs foram surpreendidos por três desconhecidos, sendo que um deles empunhava uma sub-metralhadora que passou a atirar na direção do motorista da patrulha, cabo Fernandes. Os outros marginais também atiraram na direção do veículo.
Baleado no braço direito, com um tiro que entrou na nuca e atravessou sua boca, o cabo Gomes, por ser canhoto, revidou aos tiros, com sua pistola. O cabo Fernandes, mesmo baleado nos dois braços, conseguiu manobrar a patrulha e sair do local, enquanto o seu colega revidava aos tiros.
Quando recebeu o primeiro tiro, o cabo Fernandes quase desmaiou ao volante, mas teve forças para se recompor e sair do local, dirigindo a patrulha para procurar socorro no Hospital Municipal São Francisco Xavier, onde deram entrada na emergência.  Os dois perdiam muito sangue, como mostra as fotos de dentro do veículo e da na porta do carona. 
Os dois PMs foram depois encaminhados ao Hospital Geral da Polícia Militar, no Rio. Fernandes, que é casado e pai de dois filhos pequenos, recebeu alta médica ontem.  Já, o colega, que escapou por milagre, continua internado. Um dos tiros quebrou o maxilar e ficou alojado no osso da face, e terá de passar por uma cirurgia para reconstrução da área atingida.  Outra bala se alojou no abdômen.
“Os criminosos já estavam esperando. Foi uma emboscada. Se um dos nossos policiais não reagisse, talvez os dois hoje estivessem mortos. Essa emboscada foi em represália ao que estamos fazendo em relação ao tráfico de drogas em Itaguaí”, avalia o capitão Fernando Barbosa, acrescentando que o tiro que atingiu o abdômen do cabo Gomes passou por debaixo do colete. Uma caneta de ferro usada pelo cabo Fernandes chegou a desviar um dos tiros.
O oficial garantiu que os traficantes vão ter uma resposta a altura, e acrescentou que irá incrementar as ações de patrulhamento no bairro do Engenho e em outros locais onde o tráfico esteja atuando. “Não vamos parar”, garantiu.
“Mercenários” ou Kamikazes?
Kamikazes, como aqueles pilotos japoneses da Segunda Guerra Mundial, que atacavam os inimigos com os seus aviões quando acabava a munição, ou mercenários. Assim podem ser definidos os traficantes que chegam a Itaguaí, vindos de outros locais do Rio. O capitão relembra o ataque que sofreram dois PMs do 27º BPM (Santa Cruz), mortos por um “bonde” na entrada de acesso à CSA, na Avenida João XXIII. O sargento Antônio Bezerra de Assunção, de 52 anos, e o soldado Alex Alves da Silva, de 34 anos, foram mortos a tiros.
O capitão conta que os integrantes do “bonde”, que seriam do Morro do Juramento, no Rio, teriam vindo para Itaguaí invadir alguma área e se perderam.  Parte desse bonde foi interceptado em Itaguaí, onde o oficial foi baleado de raspão no pescoço, durante o tiroteio empreendido com três traficantes que empunhavam fuzis e conseguiram escapar.
Ele lembra que os dois colegas mortos, do 27º BPM, tinham acabado de almoçar e iniciavam o patrulhamento de área quando foram atacados por integrantes de um carro, que entrara no portão da CSA, por engano.
“Eles são assim: vem para cá para cometem atrocidades e fogem”, destaca o oficial, lembrando que passara todo o dia de anteontem percorrendo ruas do bairro do Engenho e não encontrou nada.

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